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sexta-feira, 20 de julho de 2012

As favelas do Juramento e do Juramentinho e o soco no estômago


 Por Davis Sena Filho — Blog Palavra Livre
“Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós,
Das lutas na tempestade
Dá que ouçamos tua voz”.
 
(Do Hino da Proclamação da República)

Há alguns meses subi dois morros da cidade do Rio de Janeiro. O morro do Juramentinho e o mais conhecido deles, o morro do Juramento, ambos localizados nos bairros suburbanos de Tomás Coelho e Vicente de Carvalho. O Juramento era controlado, na década de 1980, pelo famoso traficante Escadinha, que em 1985 fugiu do presídio da Ilha Grande de helicóptero e foi assassinado a tiros de fuzil na Avenida Brasil em 2004 após cumprir longa pena na prisão. O dia estava calor, o que se transformou em uma dificuldade adicional para subir os morros.
Eu estava a acompanhar a comitiva de técnicos, geógrafos e engenheiros da Secretaria de Habitação do Município do Rio de Janeiro. A intenção era verificar as condições das casas de moradores, bem como saber da presença dos serviços públicos prestados às duas comunidades carentes, além da fiscalização de obra de contenção de encostas no morro do Juramentinho, cujos operários são homens contratados na própria favela, que recebem materiais de segurança e logístico adequados para trabalhar.
Conforme caminhávamos em direção à Associação de Moradores do Juramentinho, as pessoas — um número maior de mulheres do que de homens — nos rodeavam, o que as levou a nos acompanhar até a associação. Ao chegarmos lá, ouvimos as reivindicações e as queixas, de forma que tudo foi anotado por um engenheiro. Além das obras de encostas para evitar desmoronamentos com a chegada das chuvas do verão, está a ser realizado o trabalho de coleta de lixo, de desobstrução de canaletas e de avaliação das condições físicas das casas, no que concerne à segurança das pessoas.
No decorrer da visita à comunidade, o secretário municipal de Habitação anunciou que o programa Morar Carioca, que é similar ao Minha Casa, Minha Vida do Governo Federal, vai ser implementado no morro, que tem cerca de cinco mil habitantes. As pessoas que estão a morar em casas em situação de risco vão ter prioridade, bem como, se tiver que sair imediatamente dos lares, vão ter o direito de receber o aluguel social, de maneira que elas possam com o dinheiro alugar uma casa para morar. Saímos do Juramentinho e fomos para o morro do Juramento.

 O Juramento tem uma população de 70 mil pessoas. A favela é muito maior que a anterior. A pobreza dessas pessoas me comove, porque as dificuldades são inúmeras. A vida é dura para esses cidadãos humildes; muitos deles desempregados e que sonham com um emprego. Apesar de o índice de empregabilidade no Brasil ser alto existe a questão da mão de obra especializada, que está a ser resolvida por intermédio das escolas técnicas, mas que demanda tempo. Os idosos são um caso à parte. Subir o morro diariamente é difícil e complicado. E descê-lo também. Tem de ter disposição e força. O suor é abundante. Escorre pelo meu rosto e queima os meus olhos, o que me leva a pegar a manga da minha camisa para secá-los.
Dirijo-me a uma idosa e a cumprimento. Ela está curiosa. Sabe que eu não sou morador da favela. Digo-lhe que estou a acompanhar os técnicos da Prefeitura, que sou jornalista e, quando ia completar a frase, a anciã me interrompe e exclama: “Graças a Deus, meu filho… A minha casa está caindo e eu tenho medo e não aguento mais. Eu fui procurar o Wagner Montes, lá no programa dele. Esperei para ser atendida, recebi uma senha, mas até hoje não fui atendida. Eu moro em cima, a minha filha e seus filhos embaixo. Está tudo caindo, aqui tem muito lixo, esgoto e mato... Olha só...”
Eu digo a ela que os técnicos vão se reunir com as pessoas depois de chegarem ao topo do morro, onde estão implantadas as torres de energia, que ficam em um descampado, mas que também tem muito lixo. O Juramento é uma favela que tem uma população grande e carente. Durante o trajeto, íngreme e escorregadio, percebo que tem esgoto a céu aberto, muita mata, lodo, lixo e construções abandonadas, que servem de depósito para animais peçonhentos e ratos. Passo por uma criança que tem no máximo três anos, está nua e, creio eu, sozinha, porque não vi ninguém por perto a cuidar e zelar por ela. Tiro um foto, e sigo a andar, devagar, porque meus pés e joelhos estão a doer.
Os técnicos verificam as canaletas, as condições das casas, o lixo, a mata e as torres de energia. As chuvas da estação de verão preocupam. Há no ar um sentimento de pesar por causa da pobreza. Para mim, a pobreza não é apenas uma questão de condição econômica e financeira. A pobreza é uma doença, se não for a pior epidemia que vitima a humanidade. Neste caso, ela viceja e se reproduz pelo labirinto de vielas do morro do Juramento e de tantas outras comunidades do Rio de Janeiro e do Brasil. São milhões de brasileiros que vivem nessas péssimas condições, e eu, muitas vezes, publico comentários impróprios e desumanos de leitores de classe média e rica que questionam, de forma arrogante e alienada, programas como o Bolsa Família, as cotas universitárias e o Minha Casa, Minha Vida, que retiraram do desemprego, da desesperança, da ignorância e da criminalidade milhões de cidadãos brasileiros.

Publico os comentários levianos em meu blog, o Palavra Livre, para mostrar como pensa e age um certo segmento da sociedade brasileira, mesmo quando as palavras são duras contra a minha pessoa. Não importa, porque o que interessa é mostrar que esses leitores são arrogantes, presunçosos, preconceituosos, elitistas e por se conduzirem assim em suas vidas, indubitavelmente, não conhecem as realidades brasileiras. Por terem estudado e decorado e até aprendido, acredito, as matérias necessárias para suas formações profissionais, tornam-se advogados, juízes, militares, policiais, médicos, engenheiros, jornalistas, professores, comerciantes, empresários etc., sem, no entanto, serem generosos e capazes de compreender que não estamos vivos neste planeta para servir apenas aos nossos interesses burgueses e às nossas futilidades.

Os desejos de classe média, que são realizar os sonhos de consumo e ganhar dinheiro para comprar casas, eletroeletrônicos, produtos de informática, viajar, frequentar hotéis e restaurantes, fazer operação plástica, receber comendas, diplomas, medalhas, placas e premiações de seus pares de profissão e organização e afirmar nas reuniões sociais, de forma subserviente e colonizada (é o complexo de vira-lata em toda sua essência e forma) que o Brasil e o seu povo não prestam e que maravilhosos são os europeus e os EUA, mesmo quando são informados que a roubalheira e a picaretagem dos considerados “ótimos” derreteram o mercado imobiliário, o sistema bancário e as bolsas, o que acarretou falências, desemprego, pobreza depressões, violência e suicídios, ou seja, uma crise moral e econômica sem precedentes nos países considerados desenvolvidos e que os meios de comunicação privados e hegemônicos brasileiros, evidentemente, nunca mostraram com detalhes.
Depois disso tudo, esses seres “superiores”, “educadíssimos” e extremamente “inteligentes” (a modéstia é algo inalcançável para eles) vão, por meio de uma grosseria e perversidade coletiva, às redes sociais desejar a morte do presidente Lula, quando, alguns deles, não tomam simplesmente o rumo de casa com um vazio na alma e no coração, para logo passar a se dedicar às drogas — legais e ilegais — e ao álcool, muitas vezes de forma escondida ou dissimulada. É isso o que acontece, porque eu sei, porque já vi e porque pessoas que eram assim me contaram. Voltemos ao morro.
Estou no alto da favela. Olho para os becos e as vielas que lembram as teias de aranha. São centenas e centenas de calçadas estreitas que, inclusive, ficam embaixo das lajes, que formam pequenos túneis. Ao olhar o emaranhado de vielas, penso logo nos traficantes e nos policiais a correr, a se esconder, a se proteger dos tiros dos fuzis e de armas de outros calibres e tamanhos. Penso também nos trabalhadores, nas donas de casa e nas crianças. De onde estou, vislumbro as ruas da cidade e o morro do Juramentinho, onde estive horas atrás. Dá para ver as obras de encostas realizadas lá, como também tenho um panorama melhor e mais preciso das casas, da mata e do lixo por onde passei antes de chegar ao cume do morro.
 
Estou cansado e o calor é intenso, apesar da brisa que insiste em refrescar o meu rosto suado. Os pés doem e sinto vontade de beber água. Mal começo a caminhar e uma moradora, como se tivesse lido meus pensamentos, pergunta-me se eu quero água. Falo que sim. Ela se vira para dois rapazes que estão a uns cinco metros de distância sentados em uma mureta de um esqueleto de construção e grita: “Jorge, o senhor aqui quer água. Traga água e um copo”. Ele retruca, com uma pergunta para mim: “Você quer água?” “Quero” — respondo.
Enquanto os rapazes vão buscar a água, a jovem senhora e seu marido com um bebê no colo se aproximam. “Quem são essas pessoas?” — indaga o jovem pai. Respondo: “São técnicos e engenheiros da Secretaria de Habitação. Estou a acompanhar essa visita ao Juramento. Estivemos também no Juramentinho. Lá os operários estão a fazer obras de encostas por causa das chuvas de verão. É uma obra definitiva e visa evitar os deslizamentos”. “Moço, tem que fazer aqui também. Estamos abandonados. Tem muito lixo, não há coleta diariamente, tem rato, insetos e esgoto. É um perigo para as crianças. Precisamos de tantas coisas...”
Respirei fundo, e durante segundos não sabia o que falar. O pai do bebê olha para mim, e pergunta: “Quando tiver obra aqui a Prefeitura vai contratar gente daqui, não é?” Olhei para ele, e disse: “O que eu sei é que quando há obras nas comunidades as pessoas das comunidades são contratadas. O pessoal que realiza as obras do Juramentinho mora lá. Então eu acho que aqui também será assim. Além disso, há o programa do Morar Carioca, que inclui pavimentação, calçamento, esgotamento sanitário, além da construção de Clínica da Família, creche, academia para os idosos fazer exercícios e outros benefícios. É o que eu sei e o que eu vi quando fui a outras comunidades que já tiveram acesso a essas coisas”. O rapaz se aproxima com uma garrafa pet de dois litros. Entrega-me o copo e coloca água. A bebo e agradeço a gentileza.
Logo depois sou convidado pelos técnicos para descer o morro e nos dirigirmos a uma pequena lan house onde vai ser realizada a reunião com os líderes comunitários e os moradores em geral que querem fazer perguntas, reivindicações ou reclamações. Na mesa tem presunto, bolo de fubá, queijo e refrigerantes. Ninguém lancha. Os técnicos e eu estamos muito suados e cansados. Foi uma subida difícil e com obstáculos, como a mata, buracos e o esgoto a céu aberto, além de caminhos íngremes e escorregadios. As lideranças do local falam o que precisam para melhorar as condições de vida das pessoas que moram no Juramento. Pleiteiam o básico, ou seja, o que os moradores de outras favelas que estão a ser beneficiados estão a receber do poder público: asfalto, calçamento, saneamento básico, água, coleta de lixo, creche, unidade de saúde, retirada da mata e demolição de casas e construções abandonadas e com risco de desmoronar.

No decorrer da reunião, uma moça com cerca de 30 anos é ouvida pelos técnicos. Ela informa que sua casa está em péssimas condições e que em 2006 dois irmãos dela, menores de idade, perderam a vida, porque foram soterrados, pois vítimas das chuvas daquele ano. Foi determinado então que ela tivesse seu nome anotado para também, igual a mulher idosa, receber, se for o caso, o aluguel social, até que sua situação seja resolvida definitivamente no que tange à futura moradia. Uma amiga dela me observa e logo afirma: “Não sei por que não recebemos nada, mas a Mangueira está sempre recebendo melhorias, e sempre sai na televisão. A Globo gosta dela. Aqui nem repórteres vem mais. Só vinham no tempo do Escadinha para falar mal da favela e inventar coisas que não existem. Agora nem isso. Sumiram”.
Entretanto, o Governo do Estado e a Prefeitura Municipal construíram nos últimos anos 70 mil moradias, conforme a Secretaria de Habitação. O Rio é o Estado da Federação que mais construiu casas, por intermédio de convênios com o Governo Federal. Essa informação não é veiculada pelos grandes conglomerados privados de comunicação. Apesar de as televisões, por exemplo, serem concessões públicas, elas não prestam serviços à população, como informar o que acontece no Brasil e mostrar os avanços e os benefícios que o povo brasileiro conquistou e pode ter acesso. A imprensa privada não informa, apenas cuida de fofocas novelescas, com o intuito de combater o governo trabalhista. Para isso, precisa se transformar em uma fábrica de crises e factoides, porque, realmente, a imprensa comercial e privada não tem compromisso com a Nação.
Antes de eu ir embora, a proprietária da loja me informa que em setembro a menina Ana Luiza, de 13 anos, foi morta por seu ex-namorado de 16 anos com um tiro na nuca dentro da lan house. O crime revoltou a comunidade, e o assassino fugiu. Eu já estava fora da loja e voltei a olhar para dentro da lan house surpreso ao tempo que consternado. A vida é assim… É movida por pequenos e grandes dramas, ainda mais quando as pessoas são carentes e lutam dia a dia pela sobrevivência. Para se ter uma ideia da dura rotina de alguns moradores, existem idosos que não descem o morro há dez, 20 anos. São cidadãos em situação similar ao dos exilados ou dos presos, porque não têm o direito de ir e vir, por causa de suas condições físicas ou enfermidades. Realmente, ninguém merece. Sem comentários.
Existem pessoas primordiais para o desenvolvimento das sociedades. Esses seres humanos espiritualmente desenvolvidos são essenciais para que o mundo não seja dominado somente pelos indivíduos insensatos, alienados, naturalmente frios e, sobretudo, egoístas, ao ponto de ser contra programas como o Bolsa Família, que tem por finalidade garantir a segurança alimentar daqueles cidadãos que não tiveram oportunidades ou são menos instruídos ou podem menos. A visita à favela do Juramento se tornou muito importante na minha vida. Eu já fui em outras localidades carentes, mas o Juramento me surpreendeu por causa do abandono. Falta tudo. A comunidade é populosa e, de acordo com o Governo do Estado, vai ser pacificada e urbanizada, de acordo com a programação e as estratégias previamente estabelecidas. Não é fácil encarar a realidade, ainda mais quando a verdade pode se transformar em um soco no estômago. É isso aí.

3 comentários:

Leonardo Rocha disse...

Davis,
gostei muito do texto/depoimento/matéria. É inaceitável o egoísmo da classe média (para não dizer a classe alta) brasileira.
Não sei de quem é a culpa, mas acho que falta muita coisa, falta iniciativa. A Europa foi toda reconstruída depois da guerra. Como fizeram? Quanto custou? Onde deu certo e onde deu errado? Há com certeza estudos a esse respeito, é colocar em prática. Sou muito cético quanto ao atual desenvolvimento do Brasil, já disse. O que está acontecendo me faz lembrar muito o milagre do início da década de 80, com a classe média indo ao paraíso e o pobre mais ou menos onde estava. Agora, a renda está sendo distribuída, mas lentamente. E as escolas, que custaram ao Brizola seu futuro político? Hospitais? Reformas e melhorias nas favelas ajudam, mas não são a solução. Essas pessoas têm que ser integradas, morar onde eu moro, onde você mora. O exemplo são os bairros mais antigos, como Glória, Flamengo, Catete, mesmo Copacabana, onde pessoas de diferentes faixas salariais moram lado a lado.
Abraços,
José Leonardo

Guilherme Nazareth disse...

O Pessoal das favelas tem que parar de criticar governo e policia e estudar ir a luta ao invés de ficar chorando miséria, o pessoal só pensa em farra não pensa no futuro e ai depois fica reclamando que a casa ta caindo , vai meter um concurso, vai fazer uma faculdade

nunca a favela vai mudar .

Anônimo disse...

FAVELADO SO QUER SABER DE FAZER FILHO E BAILE...