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quarta-feira, 25 de julho de 2012

"Homens e mulheres são incompatíveis"

Entrevista - Rose Marie Muraro - publicada originalmente no jornal "Ministério da Saúde Informa" —  Editora MS — Biblioteca Virtual em Saúde/BVS

Por Davis Sena Filho — Blog Palavra Livre

Rose_Marie_Muraro
Muraro: "A mulher está presente na evolução material e espiritual da humanidade".
A feminista Rose Marie Muraro não tem papas na língua. Militante histórica do movimento feminista brasileiro e, por que não, mundial, Rose Marie defende, incansavelmente, a igualdade entre homens e mulheres em todas as atividades da existência humana, nem que para isso as mulheres precisem fazer uma revolução. A revolução não seria por meio das armas, mas por intermédio do diálogo - que ela chama de "consenso" - e da "tomada democrática" do poder, pelo gênero feminino, nos principais cargos públicos e privados do País. 

Para Rose Marie, os sistemas econômicos e políticos criados e estruturados pelo homem estão exauridos, ou melhor, fracassaram. Como exemplos para o que diz, a feminista e escritora (autora de onze livros, dentre eles "Mulher no Terceiro Milênio" e "Textos da Fogueira"), formada em Física, cita as guerras, a exploração do homem pelo homem, a violência doméstica e urbana e a destruição da natureza. 

As mudanças em relação a tudo isso já estão acontecendo, conforme entendimento de Rose, que afirma para quem quiser ouvir que as mulheres são maioria em escolas, universidades, serviço público dentre outros órgãos e entidades, o que, segundo ela, vai fazer a diferença e proporcionar à humanidade um mundo mais democrático, igualitário e menos violento. 

Veja abaixo um pouco do que a física Rose Marie Muraro acredita e defende em sociedade, através de décadas, que a mulher tem de ganhar espaço, a fim de que o mundo se torne mais humano e por isso também melhor para os homens, eternos parceiros das mulheres.

Davis Sena Filho - A senhora gosta dos homens?

Rose Marie Muraro (riso) - Gosto. Sem eles o mundo ficaria sem graça. Agora tem o seguinte: o homem, não como companheiro das mulheres, mas como o ser em busca de poder, criou, ainda na pré-história, toda uma estrutura chamada Sociedade de Caça, que é quando ele inventa sua primeira tecnologia: objetos pontiagudos como lanças, agulhas e flechas e vai atrás de carne e pele de animais para se alimentar e se proteger do frio. A partir daí ele passou a não se preocupar com o plantio de hortaliças - invenção das mulheres - perto de sua casa e passou a dominar outros homens e principalmente as mulheres. O Homem começa a dominar outro homem porque para caçar ele precisa de terra, e terra dividida proporciona menos animais para caçar e menos poder sobre seus adversários. Daí para matar seu semelhante ou escravizá-lo é somente uma questão de estalar os dedos. Se seu oponente ou inimigo não aceitar a situação, aí teremos a guerra, que, sem sombra de dúvida, acontece até hoje. Quanto à mulher, a Sociedade de Caça fez dela uma dependente do homem e à mercê de suas vontades e violência. Como o homem tinha a carne e pele de animais e ainda tinha o controle das armas pontiagudas, seu poder de barganha era, e até hoje é, enorme, o que fez com que a mulher ficasse em um papel secundário, de submissão.

DSF - E a questão da diferença de força física entre o homem e a mulher, juntamente com as questões da gravidez, da menstruação e da amamentação? Essas questões não fizeram com que o homem passasse a dominar as primeiras sociedades e com isso ter o poder em suas mãos?

RMM - Não. Mais do que um problema de gênero, de sexo, é um problema cultural. Veja bem: antes de o homem inventar tecnologias, as relações entre homem e mulher primavam pelo respeito entre ambos os sexos, pois ainda não existia a lógica patriarcal do matar ou morrer. As primeiras sociedades eram matriarcais, onde o consenso imperava. As mulheres são pró-diálogo, pois procuram negociar as diferenças, o que não acontece na sociedade patriarcal, onde funciona um sistema terrível de imposição do pico da pirâmide social para sua base, o que faz com que muitos homens sejam vítimas do sistema, como as mulheres o são. A saída é a mulher no poder ou a mudança de mentalidade do homem, para que haja o exercício da negociação. A fome, a miséria, as doenças e a violência poderiam, pelo menos, ser amenizadas se a base da pirâmide tivesse voz ativa e o pico da pirâmide aprendesse a entrar em consenso. E é isto que nós, mulheres engajadas com as mudanças, queremos. Do contrário, e até agora a história tem sido escrita desta forma, a sociedade patriarcal e machista vai perdurar, como também o sofrimento dos pobres, das minorias, dos mal instruídos e das mulheres. E viver assim é o que não queremos.

DSF - A senhora fala em machismo e disse que os homens são insensíveis, insensatos, egoístas, violentos além de quase incapazes de compreender o amor. Mas fica uma dúvida: a senhora, como intelectual que é, citou mais de 20 pessoas de diferentes séculos, de grande estatura intelectual, filosófica, científica e humanística. Pessoas que através do tempo construíram seu aprendizado e saber. Pois bem: dessas 20 pessoas, nenhuma é mulher. Todas pertencem ao gênero masculino. Como a senhora explica isso?

RMM - É verdade. Todas as pessoas que citei são homens. Aprendi muito com eles, a começar pelo meu pai. Reconheço, e a maioria das mulheres também reconhece que o homem tem uma enorme e imensa capacidade de transcendência. O homem está fortemente presente nas artes plásticas, nas artes cênicas, na música, na literatura, nos esportes, nas religiões, na história política, econômica e militar, nas descobertas científicas e tecnológicas etc. Mas se há de compreender que a mulher também está presente na evolução material e espiritual da humanidade. Há ainda de se reconhecer, por parte do homem, que, mesmo sendo ele o deus das descobertas e das invenções tecnológicas, o mundo que ele criou é cruel, pois no mundo do macho não existe o consenso, o diálogo, a negociação. As mulheres, até por necessidade de se manterem vivas, aprenderam a negociar as diferenças e com isso exercitar o consenso, tão necessário para o desenvolvimento humano em todos os sentidos. Eu falo isso no sentido macro. É óbvio que os homens negociam, geralmente resoluções a longo prazo quando a negociação tem que ser feita com uma certa rapidez e agilidade. Por causa disso, em contrapartida, a história humana é feita de guerras, principalmente o século XX, apesar de todas as descobertas que beneficiaram a humanidade.

DSF - Mas não é de se estranhar que a mulher busque o consenso, quando muitas mulheres que estiveram no poder, através dos séculos, eram tão ou mais duras que os homens? Para ilustrar o que eu digo, cito algumas mulheres da história e da mitologia: Margareth Tatcher, Golda Meir, Indira Gandhi, Evita Perón, Cleópatra, Elizabeth II, rainha Vitória, Madalane Albrigth, Vênus, deusa Era...

RMM - Todas não passam de machos castrados, com exceção de Cleópatra, que era uma mulher magnífica, um ser humano atento e uma grande negociadora sobre questões econômicas e políticas. Cleópatra negociou com o governo romano, o que não era fácil, com o objetivo de preservar um mínimo de dignidade para seu governo e para seu povo, além de inserir a mulher no contexto social como um ser pensante e que tem livre arbítrio. Isto tudo bem antes de Jesus Cristo, o que não é brincadeira. As outras mulheres citadas por você apenas seguiram o "manual" de como proceder como um macho, estando o mesmo no poder ou não. Essas mulheres, que são famosas, não estão sozinhas. Grande parte das mulheres comuns é machista, sendo que muitas delas procedem desta maneira sem perceber, já que estão intrinsecamente envolvidas com a ideologia do macho, do sistema vigente, que é o Sistema de Caça, que é o sistema do matar ou morrer, da exploração do homem pelo homem, do dominador e do dominado, da destruição da natureza...

DSF - Se o homem rege esse sistema que é o de Caça e que leva ao machismo, qual é a responsabilidade da mulher na construção desse sistema, já que ela no passado foi (e talvez até hoje seja), insofismavelmente, a principal responsável pela criação de seus filhos, inclusive os nascidos machos?

RMM - É uma pergunta interessante. Mas lembra aquela pergunta: "quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha"? Certamente que todos têm culpa. Tanto o homem quanto a mulher. O homem porque controla os mecanismos de poder, e a mulher porque, quando machista, consciente ou não, compactua com o homem para se beneficiar do sistema. Mas o problema não é este. O problema é que a mulher seja legitimada.

DSF - O que significa isto?

RMM - Esta palavra é chave. Sermos legitimadas significa que o homem e o sistema em que vivemos reconheçam a mulher como um ser que produz; que é suficientemente competente para galgar cargos e funções importantes, que é capaz de tomar decisões, sejam elas rotineiras ou muito sérias. Não adianta as mulheres terem o poder concedido por aberturas restritas, como se fosse uma esmola do sistema patriarcal. O homem tem que reconhecer a nossa legitimidade, até porque este reconhecimento é importante, pois, querendo ou não, o homem faz parte da vida da mulher. É o nosso parceiro eterno.

DSF - Esse parceiro eterno não é incompatível com o modo feminino?

RMM - Volto a afirmar: homens e mulheres são incompatíveis. Eles sentem o mundo diferente e por isso pensam de formas distintas. O homem, por natureza e por cultura, nasce, cresce e morre pensando sempre de forma macro, no todo. Por isso que ele tem uma enorme capacidade de transcendência, de compreender ou tentar compreender a sua própria existência ou tudo o que lhe rodeia. Mas, todavia, ele tem também uma enorme dificuldade de perceber detalhes, de discutir, de se abrir e falar de si próprio, no intuito de melhorar suas relações com o semelhante e, em contrapartida, melhorar as suas relações com o mundo, melhorando os sistemas políticos e econômicos e com isso humanizando e democratizando cada vez mais a vida no planeta. O homem é calado, geralmente não consegue abrir seu coração. Nada irrita mais a um homem quando sua companheira quer discutir a relação em que estão envolvidos. Irremediavelmente poderá haver desentendimentos ou até mesmo brigas. Este fato que parece rotineiro à mulher é extremamente penoso ao homem, pois ele é fruto da Sociedade de Caça. Ele foi preparado para resolver problemas. Ele não foi preparado para dialogar e daí partir para a resolução dos problemas, conforme característica peculiar da mulher, que, como te falei antes, está acostumada ao consenso, à negociação e ao diálogo.

DSF - A senhora fala em poder e chamou as mulheres que eu citei de machos castrados. Afinal, Rose, o que as feministas querem, pois é difícil pensar, por exemplo, que Margareth Tatcher não seja feminista, apesar de a senhora considerá-la um macho castrado. O poder — penso eu — é feito de interesses, sejam eles de estado ou não. Seja ele, o poder, preenchido, em um dado momento, por um homem ou por uma mulher.

RMM - Nós, as feministas, queremos a legitimação da mulher como um ser que tem o direito de controlar sua própria vida e de construir uma sociedade mais democrática e humana, que coloque dentro do armário, de forma definitiva, o sistema baseado no patriarcalismo, que só trouxe sofrimento e desigualdade para as mulheres, negros, índios, crianças, animais e a destruição da natureza. Margareth Tatcher não é feminista, pois feminismo é nada mais e nada menos que uma organização de mulheres de resistência ao machismo, que há milênios é usado como meio de subjugação das minorias. Tatcher, apesar de ser mulher, sempre usou os meios utilizados pelos homens que edificaram, para eles, e somente para eles, a Sociedade de Caça.

DSF - A senhora poderia, então, dar exemplos de sociedades onde a mulher, estando no poder ou fazendo parte dele tem voz ativa e, portanto, construiu ou ajudou a construir um sistema de vida mais humano e democrático?

RMM - Bélgica, Holanda, Canadá, Suécia, Islândia, Noruega e Dinamarca. Só para se ter uma idéia, esses países estão dentre os que têm os melhores índices de desenvolvimento humano, além de possuírem um sistema político e econômico democrático e participativo. Pois bem, nesses países as mulheres ocupam mais da metade dos cargos do serviço público e estão majoritariamente à frente do sistema educacional. Além disso, na política, as mulheres ocupam postos como de presidente ou primeiro ministro. A vida nesses países está nas mãos das mulheres e que eu saiba os homens não têm reclamado (risos).

Um comentário:

Márcia Esteves disse...

Davis, adorei suas perguntas e também achei a Rose Muraro muito inteligente. É muito bom ler entrevistas tão informativas como esta. Parabéns. Tenho 18 anos e aprendi muita coisa com a entrevista.