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segunda-feira, 27 de agosto de 2012

EM ALGUM LUGAR DO DESTINO


ESPAÇO BICO DE PENABlog Palavra Livre





Escuto música. O som do rádio invade todo o ambiente do quarto onde moro. Há jornais velhos espalhados pelo chão. O jazz toca fundo no meu coração. Jazz da década de trinta. Instrumental. Inexiste nele o apelo melancólico e belo da voz humana. É domingo. Olho para o relógio. Lamento o adiantado da hora. São duas horas da tarde. Perdi a manhã de sol. Sinto dor por perder tempo; uma constante em minha vida. Dói a minha cabeça. “Maldita ressaca!” – penso. Salivo a minha boca. Sinto sede; e um gosto ruim na boca. Sinto pesar sem saber claramente o porquê deste sentimento. Talvez seja falta de felicidade, de amor... Sinto que preciso acreditar em alguma coisa. Minha alma se encontra árida como os desertos.

De repente, fico irado com a dona da pensão. O quarto está empoeirado. Há alguns dias reclamei com ela o serviço de limpeza. Vou ao espelho com o objetivo de tirar cravos. Não encontro-os. A minha pele não é oleosa. Percebo, então, que estou com a barba por fazer. Sinto-me sórdido e sujo. Há dois dias que não cuido integralmente de minha higiene pessoal. Há dois dias que não vinha dormir no quarto. Mas isso – penso eu – não é motivo para que a dona da pensão não mandasse limpá-lo. Pago caro para ocupá-lo. Um quarto do meu salário vai para os bolsos da dona da pensão. É muito para mim, que, constantemente, não tenho dinheiro para pagar a passagem do ônibus para ir trabalhar.

A melancolia se propaga por todo o meu ser. Troco rapidamente de roupa – apesar da dor de cabeça – e dirijo-me ao banheiro. A dona da pensão percebe a minha presença na casa. Bate na porta do banheiro, e pergunta se sou eu. Respondo, afirmativamente. Ela retruca, convidando-me para o desjejum. Digo a ela que não será possível. Não gosto dela. Evito qualquer contato que permita fazer-me perguntas. Geralmente são perguntas que não levam a nada. Perguntas sobre mim, a minha família, o meu trabalho. Sinto cólera e asco e pena da condição humana. Mudei, com o tempo, o meu temperamento. Tornei-me arredio, taciturno e irremediavelmente sem paciência para a prática da relação humana. Não me interessa saber da vida de ninguém; saber o que os outros pensam e do que gostam.

Não tenho namorada há dois anos. Nunca mais toquei em alguém, no qual a intimidade vai além do sexo. Sinto falta disso, mas o que posso fazer... Um dia, vi uma mulher muito gostosa. Ela tinha coxas grossas, cintura fina, bunda arrebitada, lábios carnudos e os cabelos longos como os de uma amazona dos filmes de fantasia e aventura de Hollywood. Conjecturei: “se eu estivesse em um deserto, certamente a atacaria”. É o instinto animal. E toda mulher “gosta” de ser “pegada” à “força”, com sua aquiescência... Dar-lhe a satisfação de sentir-se dominada pelo macho na hora do sexo, único momento em que o homem e a mulher se divorciam da civilização, das regras, dos pudores e se tornam, momentaneamente, felizes, completos, únicos. É a volta à essência de sua existência e de sua natureza violenta de animal.

A dona da pensão, quando me vê, esboça um sorriso. O sorriso é tão discreto que mais parece um rabisco de desenho de criança de jardim de infância. Seus olhos são miúdos, como bolas de gude. São escuros e, apesar do tempo em que estão abertos, não me dizem nada por serem impessoais. A dona usa óculos para vista cansada. O tempo, ao que me parece, não foi pródigo para ela, como também não está a ser para mim. Sinto medo; e um arrepio vem ousadamente visitar os meus ossos, a minha pele, a fazer com que, morbidamente, os pelos dos meus braços ficassem ásperos.

Rumino, em fração de segundo, os meus pensamentos. Tento colocá-los em ordem, pois se encontram embaçados pela retina dos meus olhos, que levam a imagem da velha à minha consciência. A decadência humana faz com que o dom de Deus – o belo – seja um engodo. O mais cruel engodo que um homem possa imaginar na face da terra. E compreendo, com a ênfase ou o torpor do traído, que nós somos dignos da pena humana e de misericórdia divina.

Paro à frente dela. O tênue sorriso sumiu do seu rosto, como desaparece da nossa vida o amor fracassado. Ela olha-me com curiosidade, como a indagar: “por que eu sinto que ele não gosta de mim?” Cumprimento-a sem vontade, mas esforço-me para ser cordato. A dona retruca, quase num muxoxo, o meu affair forçado. De repente, como arrependida estivesse do seu desprezo, escapa de sua boca um sorriso largo, que deixa à mostra os seus dentes amarelados pelo tempo e pela nicotina do cigarro. Surpreende-me a sua venalidade de camelô. Exclama: “Não tenho mandado limpar o seu quarto porque a faxineira tem faltado. Além disso, acho que o preço do seu quarto está abaixo do preço do mercado, apesar de você quase não usá-lo, por estar fora da pensão quase o tempo todo”.

“Chacal, abutre, hiena, f.d.p.” – viajo com estes substantivos, tão próprios a mim e a ela neste momento. É o arrivismo em toda a sua plenitude. São os nossos interesses mais mesquinhos à flor da pele. É o substantivo adjetivando-se para que possamos lutar pela sobrevivência. Digo a ela: “Tudo bem, mas, por favor, faça a gentileza de mandar limpar o meu quarto”. O seu rosto se transfigura, e mostra sem nenhum pudor a bonança que se apodera dele. Ao olhar o seu semblante, acalmo-me também, pois não me interessou brigar pelo preço do quarto e assim as coisas permanecem nos seus devidos lugares, até que eu resolva que a situação mude.

Aprendi com as dificuldades da vida que devemos ceder e voltar a atacar conforme o momento e os nossos interesses mais prementes. Sofri muito para proceder desta maneira diante da existência. A única coisa que não consegui fazer ainda é aliar-me ao inimigo, pois acho que devemos — apesar de tudo o que fazemos por aí — termos um pouco de ética e vergonha na cara. Inimigo é inimigo e pronto! Vou à cozinha. Olho para a dona da pensão. Peço água. Ela se levanta com certa dificuldade, e, de cara amarrada, abre a geladeira. O eletrodoméstico está quase vazio: três garrafas de água; meia dúzia de ovos; poucos legumes e verduras; um pote de margarina vegetal; e a metade de um pudim de leite. Não entendo a má-vontade da velha. Definitivamente, sua conduta deixa-me ainda mais ressabiado com a espécie humana. Percebo, contudo, que servir a estranhos é muito difícil, ainda mais quando as dificuldades financeiras dobram os nossos joelhos quando não sentimos vontade de rezar.

Bebo água sofregamente. A quase anciã percebe que eu não estou sentindo-me bem. No dia anterior bebi hectolitros de vinho. Vinho barato, tinto rascante — “Sangue de Boi”. Comprei-o numa venda vagabunda. Peguei cinco garrafas em uma prateleira empoeirada. Dirigi-me à caixa, tirei uns trocados do bolso e paguei pelo produto. Fui ao apartamento de uma conhecida. Ao chegar lá, abrimos as garrafas e nos “suicidamos” no néctar mavioso de Dionísio. Embriagamo-nos e nos amamos como se fossem os últimos atos que realizaríamos em vida. Sinto, até este momento, o cheiro do sexo da minha parceira. Sinto o hálito morno de sua boca a devorar a minha, como se ela desejasse mais a minha alma do que o meu sexo. Tornei-me, involuntariamente, o andor onde ela buscava equilibrar-se em busca de um sentido para a vida. Éramos frágeis em nossa carne; em nossa efemeridade patética. E notei, pela primeira vez na vida, que é absoluta a nossa solidão.

Olhei para a senhora da pensão ao tempo em que passava o dorso da mão esquerda pelos meus lábios. A água estava muito gelada. “Ótimo!” – comentei, em voz alta. Pedi mais um pouco de água. A dona encheu o meu copo do líquido, que foi bebido com rapidez. Ela olhava diretamente para os meus olhos, como se quisesse decifrar-me. Disse-me, sem motivo aparente, que longo não é o tempo, mas sim as horas que giram em torno do relógio. Os ponteiros – segundo ela – apenas indicam a decadência física do nosso corpo e a senilidade de nossa mente. E complementei: “É verdade. O resto, minha senhora, é ilusão. Até as pessoas compreenderem este saber é como achar sombra no deserto escaldado pelo tempo e pela falta de memória de si mesmas”.

Agradeci pela água bebida. Fui ao quarto, peguei as minhas roupas e fui procurar o meu lugar — em algum lugar do destino.

Davis Sena Filho

2 comentários:

Luis Claudio Amaral disse...

Ler um conto como esse realmente vale à pena porque ele faz a gente pensar sobre a vida lembrar que somos realmente seres necessitados e muito frágeis.

Anônimo disse...

Impermanência e efemeridade são nossas constituições intrínsecas. Os ecos da vida e seus ruídos da passagem do tempo, entre utopias e barbáries,são percebidos mais nitidamente pelas almas feridas como esta, neste seu brilhante texto. Comoventemente perturbador e sem concessões: na veia. Gostei imenso....como dizem os alfacinhas, desta (mais uma) pérola daviseniana.
Abraço
Marcos Lúcio