Google+ Badge

domingo, 15 de abril de 2012

O Flamengo vingador e o soco no ar



Flamengo é o único campeão mundial do Rio de Janeiro
Por Davis Sena FilhoBlog da Dilma —  Blog Palavra Livre

“O Botafogo é o único clube que foi promovido de general para marechal”.

Era o ano de 1972. Eu tinha12 anos. Estava no segundo ano do ginásio, que se equivale atualmente à sexta série e morava na rua São Sebastião, na Urca. Naquele tempo não existia tecnologia para as crianças e adolescentes brincar ou estudar ou simplesmente navegar pela internet, além dos celulares, é claro. Era uma época de brincadeiras de pique, garrafão, subir o morro da Urca, ir à praia até a noite e, evidentemente, jogar futebol — muito futebol.

Foi um ano difícil no que se trata ao futebol, apesar de o Mengão Campeão do Mundo ter sido campeão carioca, em um time em que atuavam craques como o magnífico Paulo César Caju, o raçudo e goleador argentino, ídolo da torcida rubro-negra e meu primeiro ídolo no futebol, Horácio Narciso Doval — o grande Doval, o goleiro de seleção, Renato, que foi convocado para a Copa do Mundo de 1974, além do becão Reyes, defensor paraguaio de muita técnica, excelente colocação e ótimo toque de bola, sem esquecer do centroavante Dionísio (o Bode Atômico), do lateral de seleção Rodrigues Neto e do meio campo de muito talento, Zanata, que depois foi para o time que usa um cinto de segurança na camisa, talvez para não cair ou não bater com a cara no muro, ou seja, vou traduzir: sete vice-campeonatos seguidos para o Urubu Cruel Masumildeh. É o nosso vice de estimação.

Como se vê, o Flamengo não era um time qualquer. Era o campeão carioca, que superou times fortes como os do Fluminense e do Botafogo (argh!). Não posso falar do time da cachorrada (il…il… il… Silêncio no canil!!!) impunemente, sempre me causa náusea, sentimento profundo de rejeição à vira-latagem e um misto de desprezo e ironia, porque os torcedores daquele time (argh!) insistem em considerar seu clube grande, apesar de terem conquistado meia dúzia de títulos e até a década de 1940 terem uma torcida menor que a do América.

Todavia, antes de voltar ao assunto, quero lembrar que o Mengão — MAIOR CLUBE DO MUNDO, o Papa-Títulos dessas bandas cariocas e fluminenses — gostou muito de colocar a rapaziada alvinegra em seu devido lugar: o vice do Brasileiro de 1992, que foi muito doído para a cachorrada, além, é óbvio, o trivice recente imposto nos anos de 2007, 2008 e 2009. Em 2010, eles ganharam, mas, contudo, não teve final. E é somente o que interessa: vice é com eles.

Ditas as verdades irrefutáveis, voltemos ao assunto. Estamos em 1972. Minha mãe coloca a mesa e chama a família (somos cinco) para lanchar. Foi um dia de domingo ensolarado, e as conversas na praia da Urca e entre os meus amigos era sobre o Flamengo e o Botafogo (argh!) que jogariam às 17 horas. Sentei à mesa e levei meu radinho de pilha. Meu pai me chamou, perguntou pelo placar e me deu dinheiro para que eu fosse comprar a Coca Cola Família, como era chamada na época a garrafa de um litro desse refrigerante. 

O placar estava zero a zero. Deixei o radinho em casa e fui para a rua em direção ao pequeno comércio. Mal dei início à caminhada, o Botafogo marcou o primeiro gol. Vi um amigo, parei para conversar. Depois segui caminho, quando ouvi gritos, e pensei: o Flamengo empatou. Nada disso. Era o segundo gol do antipático adversário. Cheguei ao botequim, e fiz o pedido. O atendente me deu a Coca Cola e segui meu caminho de volta. Antes de entrar no prédio, o Botafogo (argh!), também conhecido como Chorãofoguinho ou Botachorãonisso, fez o terceiro gol, o que me deixou preocupado, porque ainda o Mengão tinha pela frente o segundo tempo. Começou o tempo final. Acabou a partida: Flamengo 0 X 6 Botafogo!

Eu, como informei antes, freqüentava os bancos do ginásio. Terminei o ginásio a escutar gozações de amigos botafoguenses. Nada, porém, que impedisse de o Flamengo vencer os campeonatos de 1974, o Torneio do Povo de 1974 e o tricampeonato carioca de 1978, 1979 e 1979 (Especial), quando o Rubro-Negro começou a formar um esquadrão quase imbatível, que, posteriormente, dominaria o futebol brasileiro por cinco anos, retratados em vitórias e títulos inestimáveis e inesquecíveis, inclusive a ter o Chorão alvinegro como vítima, a tal ponto de o Urubu Rei superar o clube de General Severiano em vitórias no que diz respeito ao confronto entre os dois clubes no decorrer da história. A resumir: o Chorão é pato (Donald?); é freguês nas estatísticas. Esta é a mais saborosa verdade.

Pano rápido para a piada. O Botafogo foi o único clube que, em dado momento, perdeu sua sede, a de General Severiano. O Alvinegro foi para o bairro suburbano de Marechal Hermes. Nós, rubro-negros, inventivos e criativos (o que é uma redundância), afirmávamos que o Botafogo foi promovido de General para Marechal. Não é uma verdade, caro leitor? Hê hê hê!!!

Entretanto, os títulos do Flamengo, a formação de um timaço capitaneado pelo grande Zico, as vitórias históricas, os grandes jogos não aplacavam a arrogância da torcida menor, órfã de títulos, mas, contudo, prisioneira de poucos títulos distantes, do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça, ou melhor, do tempo do ronca. Por mais que o Mengão Campeão do Brasil, depois do Mundo e da Libertadores se esmerasse em vencer para conquistar, lá vinha o botafoguense com as palmas das mãos abertas a mostrar com os dedos os 6 a 0 de anos atrás. 

A torcida  chorona e cri-cri, conforme a apelidou o rubro-negro e talentoso cartunista Henfil, inclusive, usava uma faixa que lembrava à grande torcida do Flamengo, a torcida do povo, e aos jogadores rubro-negros os 6 a 0 de 1972. Era sempre assim. Incomodava… Mas sabíamos que o fatídico placar era somente que os botafoguenses tinham naquele momento, afinal o Flamengo os superou até nos confrontos diretos.

Passaram-se os anos, e eu e minha família não mais morávamos na Cidade Maravilhosa. Mudamo-nos para o Rio Grande do Sul, depois para Brasília e, posteriormente, para o Mato Grosso do Sul. Esses momentos saltibancos ocorreram no tempo de sete anos, quando retornamos para o Rio de Janeiro em 1982, agora para morarmos no bairro do Flamengo. Nome lindo e sugestivo, não é mesmo? Porém, há um interregno. Quando eu estava em Mato Grosso do Sul, na linda e organizada Campo Grande, resolvi fazer vestibular em Uberaba, cidade do Triângulo Mineiro. Passei e fui morar naquela ótima cidade, a terra do boi zebu. Morava em república de estudantes, o que nos dava autonomia, porque administrávamos a casa, com muita festa regada a música, cerveja e galinhada (arroz, galinha, temperos, tudo em um panelão).

Jogávamos bola nos fins de semana. Depois da peleja (como diziam os narradores antigos), íamos sempre a um bar, com mesas e cadeiras espalhadas pela calçada, beber cerveja com as garotas, quase todas do curso de Psicologia — nossas fiéis torcedoras. Naquele dia, jogamos contra dois times, em um torneio de três. As partidas começaram às 4 da tarde e foram até as 8 da noite. Era um domingo, dia 8 de novembro. Chegamos ao botequim e pedimos cerveja e alguma coisa para beliscar. Em 1981, os bares não tinham televisão. Raro era algum tê-la. Não existia o celular e muito menos internet, TV a cabo etc. Enfim, estávamos no bar, depois de jogar futebol…

O garçom coloca cerveja no meu copo. Enche-o, espumosamente… De repente, ele olha para seu colega que está dentro do botequim, e exclama ao tempo que indaga: “Cara, o Flamengo meteu 6 a 0 no Botafogo!?!” Eu tinha esquecido o jogo. Levo um susto, pois tomado pela surpresa e pela dúvida. O outro garçom responde: “Foi de seis, fora o baile!” A notícia atravessou minha alma como um raio, e tomou conta do meu espírito e do meu pensamento rubro-negros.

Durante longos nove anos eu esperava por esta doce vingança, temperada pela humilhação que eu, quando menino de 12 anos, tive de suportar. Olhei estupefato para o garçom que me atendia e, ainda sem sorrir, perguntei: “Meu amigo, você tem certeza do que está a falar sobre o Flamengo e os seis a zero?” Ele respondeu: “Certeza absoluta!” Meus amigos e amigas pararam de beber e ficaram a prestar atenção no diálogo. Era como se o tempo parasse e ninguém respirasse. Comecei a rir, gritei, levantei da cadeira, disparei pela rua e dei um soco no ar.

Segue abaixo o vídeo \”QUEREMOS SEIS!!!\”


FICHA TÉCNICA
 
8/11/1981 – Maracanã – Rio de Janeiro
Flamengo 6 x 0 Botafogo
Juiz: Édson Alcântara do Amorim (MG)
Renda: Cr$ 15.031.600
Público: 69.051
Gols: Nunes 7, Zico 27, Lico 33 e Adílio 40 do 1º tempo. Zico (pênalti) 30 e Andrade 42 do 2º tempo.
Cartões Amarelos: Júnior e Perivaldo.
Flamengo: Raul, Leandro, Figueiredo, Mozer e Júnior; Andrade, Adílio e Zico; Tita, Nunes e Lico. Técnico: Paulo César Carpegiani.
Botafogo: Paulo Sérgio, Perivaldo, Gaúcho, Osvaldo e Jorge Luiz; Rocha, Mendonça e Ademir Lobo; Édson (Jairzinho), Mirandinha e Ziza. Técnico: Paulinho de Almeida.

Nenhum comentário: