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quinta-feira, 4 de julho de 2013

Um dia sem Globo, o povo não é bobo... a presidenta e o marco regulatório

Por Davis Sena Filho Blog Palavra Livre


Há muitos anos, em Brasília, no fim da década de 1980, um amigo me disse a seguinte frase: “Cara, se não fosse a grande imprensa e em particular a Globo, o Brasil estaria mais avançado em seu processo político e econômico”. Por alguns segundos fiquei pensando na frase do meu interlocutor enquanto nos encaminhávamos para um restaurante. Olhei para o meu amigo, e disse: “É verdade...” E fomos almoçar.

Luiz Inácio Lula da Silva, o Lula, candidato do PT a presidente da República, tinha, recentemente, sido derrotado para o candidato da direita, Fernando Collor de Mello (PRN), com a visível e inquestionável intervenção dos barões da imprensa, notadamente a TV Globo, empresa pertencente ao magnata de comunicações, Roberto Marinho, cidadão useiro e vezeiro em intervir no processo político brasileiro desde os tempos idos da década de 1920.

O jornal O Globo foi fundado por seu pai, Irineu Marinho, em 1925, morto 21 dias após a fundação do diário, o que levou o seu filho, Roberto, a ser o seu sucessor e praticamente ter sido durante toda a sua vida o único responsável pelo futuro e as escolhas políticas do jornal conservador e da TV Globo, fundada em 1965, com o beneplácito da ditadura militar e o dinheiro e a cooperação técnica do grupo norte-americano Time-Life, na época associado a Roberto Marinho.

O magnata das comunicações foi muito questionado e, consequentemente, teve de depor, em 1965, em CPI na Câmara dos Deputados para dar explicações sobre a sua parceria com corporações empresariais estrangeiras, pois de acordo com a Constituição brasileira tais grupos são proibidos de serem proprietários ou gestores de meios de comunicação. Marinho negou em seu depoimento e afirmou que firmou dois contratos com a Time-Life.

O primeiro era relativo à assistência técnica, e o segundo se tratava de um contrato, conforme as palavras do próprio Roberto Marinho, a seguir: “O outro contrato que achamos poder estabelecer foi uma conta de participação joint venture, que, como vossas excelências sabem, é um contrato de financiamento aleatório, uma vez que não dá nenhum direito de direção ou de propriedade a uma empresa, apenas participando o financiador dessa empresa dos seus lucros e prejuízos”.

Evidentemente, como foi provado posteriormente, os Marinho se associaram aos norte-americanos, que tinham participação de 30% nos lucros da empresa e, por conseguinte, influência na gestão, porque os donos da Time-Life, juntamente com os Marinho, eram os principais acionistas da Rede Globo e, obviamente, não abririam mão de influenciar, inclusive no que diz respeito ao jornalismo global, que sempre combateu, indelevelmente, qualquer movimento ou campanha nacionalista, os partidos e os governantes trabalhistas em todas as épocas, bem como, sem sombra de dúvida, contrariaram sistematicamente os interesses do Brasil.

Em 1989, após o último debate entre o Lula e o Collor, o magnata Roberto Marinho deu uma ordem a um dos diretores de telejornalismo da TV Globo, Alberico de Sousa Cruz, para que editasse o debate entre Lula e Collor, a favorecer o ex-caçador de marajás. Alberico negou ter interferido na edição, mas o diretor da Central Globo de Jornalismo (CGC), Armando Nogueira, até há pouco tempo, antes de sua morte, em março de 2010, afirmava que Roberto Marinho sabia o que estava a acontecer sobre a edição pró-Collor, bem como se sentia traído pelo seu subordinado, Alberico de Sousa Cruz, que em 1990 assumiu a CGC no lugar de Armando, só saindo em 1995, quando o diretor de O Globo, Evandro Carlos de Andrade, assumiu a direção do telejornalismo global.

Armando Nogueira fez duras críticas a respeito da edição manipulada do Jornal Nacional, a favor de Collor, para o magnata Roberto Marinho, que logo afastou o seu diretor de jornalismo e o aposentou. Além disso, existe outro nome importante envolvido nesse escândalo midiático, e que atende pelo nome de Ronald de Carvalho. Editor de Política da emissora, Ronald é acusado de modificar a edição veiculada horas antes no Jornal Hoje, com a intenção de prejudicar o candidato Lula em favor de Collor, candidato de Roberto Marinho e da maioria do empresariado.

Marinho, tal qual a grande maioria dos grandes empresários brasileiros na época, temia a vitória de um político de esquerda e principalmente do PT, partido orgânico, inserido em quase todos os setores da sociedade organizada e praticamente a única agremiação política deste País que é verdadeiramente um partido político na acepção da palavra e por causa disto combatido ferozmente pela direita empresarial e partidária, com o apoio das classes médias tradicional e alta, pois portadoras que são dos valores e dos princípios dos ricos.

Armando Nogueira disse: "Alberico, à minha revelia, mandou fazer alterações, das quais eu só tomei conhecimento no ar. Então eu estava diante de um caso típico de deslealdade, de traição profissional, traição funcional. Foi um caso típico de deslealdade profissional desse rapaz que era uma pessoa de minha confiança e que segue até hoje e vai continuar negando até o juízo final. Mas, no juízo final, continuarei a responsabilizá-lo por isso".

Pelo o que se observa, Ronald de Carvalho assumiu a responsabilidade pela manipulação da edição ordenada por Roberto Marinho, que Alberico sempre negou ser um dos mentores. Ronald disse: "Eu, desde o primeiro momento, sempre tenho dito e repito: o único responsável pela edição do debate fui eu. Não recebi instruções de ninguém". A verdade é que Alberico de Sousa Cruz recebeu ordem de Roberto Marinho para efetivar as modificações na matéria sobre o debate e o Ronald de Carvalho obedeceu ao chefe imediato, e foi mais além ao dizer que “não concordava com a isenção, que naquele momento era preciso mostrar a realidade” {dos acontecimentos}, ou seja, que o Collor foi melhor que o Lula no debate e teria que vencer as eleições, porque a vitória de Lula não interessava às Organizações(?) Globo.

A conclusão que chego é que realmente o magnata Roberto Marinho tentou influenciar no que concerne às eleições presidenciais de 1989, a primeira após os 21 anos de ditadura militar. Essa realidade pode ser facilmente comprovada e respaldada por outros episódios em que a Globo foi protagonista, a exemplo do escândalo da Proconsult, SNI e Globo, quando tentaram derrotar o candidato do PDT, Leonel Brizola nas eleições para o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Um escândalo inominável, por se tratar de fraudar as eleições garantidas pelo TSE e TRE, além desprezar o jogo democrático, bem como o povo brasileiro, especialmente o fluminense que esperou mais de duas décadas para ter o direito de votar.

Todavia, a família Marinho e os seus empregados porta-vozes de seus interesses e pensamento ideológico não se fazem de rogados e não desistem nunca, porque acima de tudo a Globo, máquina midiática poderosa, é uma ferramenta de convencimento e de propaganda do sistema capitalista, que luta, diuturnamente, pela supremacia das classes sociais hegemônicas, das corporações privadas e dos governos que dominam o establishment internacional, pois o Brasil é um dos países mais ricos do mundo, com um mercado interno gigantesco e que atualmente efetiva uma diplomacia não alinhada aos Estados Unidos, bem como tem a mesma postura com os países imperialistas da Europa, a exemplo de França e Inglaterra.

Por seu turno, salutar se torna também lembrar a atuação das empresas dos Marinho, no que é relativo aos comícios das Diretas Já. Em novembro de 1983, a Globo noticiava a movimentação de dezenas de milhares de pessoas como sendo a comemoração pelo aniversário da cidade de São Paulo. Ridículo e má fé na veia, porque o movimento cívico passou a acontecer nas principais capitais do País, a atrair milhares de pessoas em cada praça, que queriam o fim da ditadura e a volta das eleições diretas para presidente da República. Durante o comício, o povo gritou em tom uníssono: “O povo não é bobo abaixo a Rede Globo!” Este brado é uma manifestação antiga e que perdura até hoje, como bem se ouviu nas manifestações de junho deste ano.

Eu estive no comício das Diretas Já que ocorreu em abril de 1984, na Candelária, no Rio de Janeiro, evento que me deixou impressionado, porque a multidão de um milhão de pessoas ocupou a Avenida Presidente Vargas, bem como as ruas transversais e adjacentes à avenida. Como sempre, os principais meios de comunicação se comportaram contrários ao movimento de massas ou atuaram de forma dúbia, para depois aderir. É o caso da Folha de S. Paulo, propriedade da família Frias, que apoiou os comícios, ao tempo em que colocava no alto da capa do jornal uma faixa verde e amarela.

A Folha, aquela mesma que emprestava os seus carros para os agentes do DOPS — instituição tenebrosa comandada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury — carregarem os presos políticos, muitos deles torturados e mortos pela repressão à esquerda armada. A mesma Folha que há 11 anos efetiva e repercute uma campanha insidiosa contra os governos trabalhistas de Lula e Dilma e que busca, incessantemente, por intermédio de matérias e notas, algumas implantadas e encomendadas, desqualificar as ações do Governo, desconstruir as imagens dos dois mandatários do campo da esquerda e desvalorizar as conquistas socioeconômicas do povo brasileiro.

Entretanto, e apesar de tudo, a Globo nunca desistiu de manipular e distorcer as informações, se necessário. Quando as manifestações de junho começaram, os comentaristas, blogueiros e colunistas empregados da imprensa de mercado trataram logo de desqualificá-las. Boris Casoy e Arnaldo Jabor, dentre muitos outros, foram os mais emblemáticos, porque se apressaram para criticar os protestos açodadamente e até mesmo colericamente.

Com o decorrer das inúmeras manifestações, os jornalistas mudaram de opinião como se troca de camisa e passaram a elogiar as manifestações porque perceberam que poderiam atingir o Governo Federal, além de evidentemente ficar mais do que óbvio que grande parte dos manifestantes eram e ainda o são conservadores, “apartidários” e “apolíticos”, como se autodenominavam, além de inquestionavelmente serem integrantes de uma classe média antipetista e insatisfeita com a ascensão de mais de quarenta milhões de brasileiros que entraram na classe média baixa, ou seja, transformaram-se em consumidores, de acordo com o que compram e recebem por mês.

Em muitas manifestações, os protestantes empunhavam cartazes contra a Globo e a cartelização do setor de comunicação no Brasil. Repórteres da Globo foram vaiados, xingados e até mesmo ameaçados de agressão física, o que é um absurdo, mas aconteceu. Rapidamente os diretores da Globo perceberam que os protestos poderiam chegar às sedes da Globo e por isto mudaram de postura em relação às manifestações. Os repórteres para não serem agredidos ou ofendidos retiraram a logomarca da Globo de seus microfones.

Posteriormente, os jornalistas se retiraram da “muvuca” e se afastaram das multidões. Passaram, então, a cobrir os eventos por intermédio de helicópteros. Incrível, mas aconteceu, e a Globo ainda insiste em mostrar uma imagem positiva de si mesma de que grupos de manifestantes não são contrários à Globo, empresa que desde 1965 quer pautar os governantes e os parlamentares deste País, bem como determinar o modo de vida do povo brasileiro.

E agora a pergunta que insiste em não calar: Como a Globo, as suas coirmãs e os proprietários dos diferentes meios de comunicação vão se comportar quando manifestações, a exemplo de “Um Dia Sem A Globo” começarem a chamar atenção do público, que vai protestar em frente as sua principais sedes? Tem de ficar claro que aos barões da imprensa que esses manifestantes certamente não vão ter o mesmo perfil político e ideológico da maioria dos manifestantes de junho, que se diziam, de forma ridícula e perigosa para o sistema democrático, “apolíticos” e “apartidários”, ou seja, despolitizados.

Certamente que os protestos vão ser realizados por pessoas que votam em políticos e partidos de esquerda ou não, que são membros de associações, ongs e sindicatos, bem como atuam em movimentos populares, que lutam pela democratização do sistema midiático no Brasil, que, efetivado, vai propiciar melhor acesso à informação, além de efetivar um processo de disseminação da banda larga rápida e mais barata em todo o País.

Além disso, pessoas do povo e também das classes médias tradicional e alta também vão participar dos protestos contra a Globo e a favor do fim do monopólio nos meios de comunicação. Afinal, existem muitos indivíduos de classe média que fazem questão de serem cidadãos politizados, que votam em políticos e em partidos, bem como acreditam que o Congresso tem de ser protegido e prestigiado para não ser fechado, como ocorreu na ditadura militar.

Acreditam ainda que a Casa do Povo, de forma alguma, pode ser tutelada, por exemplo, pelos barões da imprensa de negócios privados e pelo Poder Judiciário, onde atuam juízes, como o Gilmar Mendes, useiro e vezeiro em intervir nos trabalhos do Parlamento, e o Marco Aurélio de Mello, este último, ora veja, teve a desfaçatez e a insensatez de afirmar que “a ditadura foi um mal necessário”. Fazer o quê, né? Durma-se com um barulho desse ou compre tampões para os ouvidos.

A verdade é que a presidenta Dilma Rousseff estancou os movimentos e os encontros que tratam da democratização dos meios de comunicação no Brasil. O Governo trabalhista tem uma péssima Secretaria de Comunicação (Secom) chefiada pela jornalista Helena Chagas. A Secom é inoperante, pois, além de não divulgar os trabalhos, os programas, os projetos, as obras e as ações do governo, também não o defende quando é necessário.

Não sei o que acontece com a jornalista Helena Chagas, que transformou a Secom em apenas uma repassadora de verbas publicitárias para os meios de comunicação privados, que há décadas deitam e rolam com esses recursos, sendo que o retorno contumaz é o ataque sistemático contra o Governo trabalhista. Um Governo que, como se estivesse amarrado e amordaçado, não consegue ao menos se defender. Lamentável. Um absurdo.

A não implementação de um marco regulatório para os meios de comunicação é um verdadeiro tiro no pé para os interesses do País, que fica à mercê dos ditames dos homens de negócios e de uma oposição partidária totalmente vinculada ao sistema de capital. A ausência de um marco regulatório é como se um granjeiro não tivesse a ajuda de um cão para afastar as raposas de sua granja. A regulamentação das mídias consta nada mais e nada menos na Constituição de 1988. Ponto.

A presidenta trabalhista está a fazer ouvidos moucos, porque não escuta um enorme contingente da sociedade organizada que luta para a lei ser cumprida, afinal a regulamentação é assunto constitucional. Diferentemente do presidente Lula, Dilma insiste em cruzar os braços, mesmo a saber que os países mais importantes do mundo regulamentaram esse importante setor da economia, que não pode ficar ao bel-prazer dos barões midiáticos, imperialistas e que detestam o Brasil e desprezam o povo brasileiro.

O projeto de marco regulatório para as mídias, do jornalista e ex-ministro de Lula, Franklin Martins, deve estar completamente empoeirado e com cheiro de mofo. Martins viajou para vários países para obter informações sobre os marcos regulatórios efetivados pelos governos, com o apoio dos seus respectivos parlamentos. Voltou para o Brasil, reuniu um grupo de estudos e apresentou a proposta para o presidente Lula, que o enviou para o Ministério das Comunicações para ser avaliado e estudado. Até hoje o projeto está em alguma gaveta ou armário do ministério. Dilma Rousseff cruzou os braços e o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, agradece penhoradamente, porque há muito tempo ele faz o jogo dos que têm o domínio do sistema midiático comercial e privado.

Há muitos anos ouço falar que as Organizações(?) Globo devem ao fisco, às instituições bancárias estatais e coisa e tal. Recentemente tem sido publicado na blogosfera e em alguns veículos de comunicação hegemônicos, como a “insuspeita” Veja, que na coluna Radar, do jornalista Lauro Jardim, publicou a seguinte nota: Depois de uma longa discussão jurídica, o Leão rugiu mais alto: a Globo perdeu e terá que pagar 2,1 bilhões de reais à Receita Federal por operações que resultaram em um recolhimento menor de impostos. Das setenta grandes empresas autuadas em procedimentos semelhantes, a Globo foi a única cujos argumentos não foram aceitos. Cabe, no entanto, recurso.

Como se observa, o blá blá blá antigo de que a Globo deve e sonega se concretizou. Contudo, venhamos e convenhamos, não é necessário ser um gênio ou matemático ou fiscal ou contador ou economista para que se possa desconfiar da riqueza bilionária de um pool de empresas, que cresceu e se consolidou na ditadura militar, e que no passado escolhia e nomeava até ministro da Fazenda, a exemplo do senhor Maílson da Nóbrega, que certa vez afirmou, para quem quisesse ouvir e acreditar, que foi sabatinado pelo magnata Roberto Marinho, para logo depois do encontro receber um telefonema de que seria ministro da Fazenda. Esses episódios aconteceram em 1987.

Enquanto isso, espera-se pela regulamentação das mídias e a democratização dos meios de comunicação, como tal acontece nos países europeus desenvolvidos e nos Estados Unidos, referências de nossas “elites” bárbaras, de passado escravocrata e apoiada por uma classe média que cinicamente e hipocritamente se autodenomina “apolítica” e “apartidária”. Só que a Globo está com a barba de molho, porque as manifestações de junho vão chegar às suas portas. Afinal, os protestos, indubitavelmente, foram também contra a “Vênus Platinada”. É isso aí.

2 comentários:

Costa disse...

Espero que a presidenta Dilma, mostre aos donos do ninho tucano e da direita reacionária, quem de fato manda neste país.....

Anônimo disse...

Muito bom o artigo. Linguagem de excelência com conteúdo altamente relevante.